Conexões perigosas

Canal Saúde
Fabiano Gomes
Valéria Ramos, psicóloga: o excesso de conexão está ligado à busca do prazer e à fuga dos problemas e frustrações
Valéria Ramos, psicóloga: o excesso de conexão está ligado à busca do prazer e à fuga dos problemas e frustrações
Valéria Ramos, psicóloga: o excesso de conexão está ligado à busca do prazer e à fuga dos problemas e frustrações

Se você não consegue desligar o computador ou o celular, pode estar sofrendo de dependência tecnológica

Viver conectado tem suas vantagens. A internet, o Facebook e o Whatsapp são excelentes ferramentas de trabalho e interação social. O problema começa quando se ultrapassa o limite do razoável. Há pessoas que não conseguem ficar mais de 15 minutos sem checar as mensagens ou se desesperam com o simples fato de se imaginarem sem conexão wi-fi ou sem bateria no celular. Em alguns casos, a vida social fica em segundo plano: troca-se uma festa de família ou um dia na praia por horas a fio na frente do computador. Quando isso acontece, surge a dependência tecnológica, um mal relativamente recente que já é reconhecido como doença.

“A internet é fascinante, por isso agrada. E é isso que as pessoas buscam o tempo todo: prazer”, analisa a psicóloga Valéria Batista Ramos. Em seu consultório, ela atende muitos pacientes que ultrapassaram o limite e precisam de ajuda profissional para se recuperar. Na maioria, são adolescentes tímidos, que passam mais de seis horas por dia em frente a uma tela, ou crianças que não imaginam a vida sem os joguinhos do celular.

Mas a dependência também afeta adultos, com consequências negativas principalmente nas relações conjugais. “É uma fuga dos problemas e frustrações. No mundo virtual, eles se sentem mais poderosos”, explica a psicóloga. O que seria um facilitador de relações acaba se tornando um problema. Uma cena típica: na hora do almoço em família, todos estão calados e com os olhos no celular ou no tablet. Pai, mãe e filhos mal se veem. Estão conectados, porém solitários. “Viver na rede é fantástico, mas jamais podemos nos esquecer de que somos seres sociais. Nosso maior desafio hoje é equilibrar a vida real e a vida digital”, pondera o escritor Gil Giardelli, autor do livro “Você é o que você compartilha”.

Web-ativista, Gil observa que toda tecnologia perde o sentido se não proporcionar mais contato humano. “Amanhã ou daqui a pouco, descnonecte-se e vá escutar o canto dos pássaros, a poesia das ruas, o burburinho do escritório. Vá beijar e abraçar quem você ama, vá sentir o vento em seu rosto, o sol em sua pele, conhecer mais pessoas na vida real, reencontrar amigos”, propõe.

Marcelo (nome fictício), 19 anos, diz ter vivido o auge da dependência tecnológica. “Várias vezes, virei a noite jogando no computador, sem parar para comer nem beber água”, conta o estudante, que diz ter encontrado na namorada a motivação que faltava para se desconectar. “Era ela ou o computador”. Há dois anos, Marcelo conseguiu mudar sua rotina. E o namoro vai bem, obrigado. Mas há casos extremos, como o de um estudante australiano que, apaixonado por um game online, matou aula por três semanas seguidas para ficar até 16 horas conectado por dia.

Segundo Valéria Ramos, é fundamental o apoio da família e, nos casos mais graves, acompanhamento psicológico. Ela dá algumas dicas para combater a dependência tecnológica: limitar o tempo de uso do computador a duas horas por dia, evitar que o adolescente tenha computador no quarto, incentivar a prática do esporte e atividades ao ar livre, cultivar o hábito da conversa e usar o telefone para falar mais com as pessoas, e não apenas teclar com elas. Porque toda a tecnologia é bem-vinda, desde que se faça um bom uso dela.

Você precisa saber

A dependência de tecnologia é um fenômeno mundial, e estima-se que aproximdmente 5% dos jovens que usam as redes sociais ou jogam on line possam ter algum problema decorrente do seu uso.

Meninos têm mais problemas devido aos jogos on line, enquanto as meninas fazem uso mais intenso das redes sociais.

Os prejuízos mais observados são piora importante no rendimento escolar, isolamento social e conflitos familiares.

A maioria dos jovens que se encontra nessa condição apresenta também outros problemas que necessitam de atenção. Os mais comuns são depressão, ansiedade social, déficit de atenção/hiperatividade e agressividade.

Para a grande maioria dos jovens, o uso intenso e os prejuízos decorrentes tendem a se manter ao longo do tempo, não sendo apenas uma “fase passageira”.

Você é dependente tecnológico?

Segundo um estudo realizado pela psicóloga Kimberly Young, especialista em transtorno de dependência de internet, é considerado dependente quem apresenta pelo menos cinco destes oito sintomas:

Preocupação excessiva.

Necessidade de aumentar o tempo conectado para ter a mesma satisfação.

Exibir esforços repetidos para diminuir o tempo de uso da internet.

Presença de irritabilidade ou depressão.

Quando o uso da internet é restringido, apresenta oscilações emocionais.

Permanecer mais tempo conectado do que o programado.

Trabalho e relações sociais em risco pelo uso excessivo.

Mentir aos outros a respeito da quantidade de horas on line.