Além do corpo físico

Canal Bem-estar

Médicos e cientistas pesquisam o efeito da espiritualidade sobre o tratamento de doenças

A crença de que existe algo além do corpo físico e de que a fé ajuda na cura das doenças deixou de ser um tabu religioso. O conjunto de emoções e convicções de natureza não material que podem influir na saúde do ser humano já é estudado em diversas universidades mundo afora. A isto, os médicos e cientistas chamam de espiritualidade. E não tem a ver com religião.

Se a ideia lhe parece absurda, uma informação importante: mais de 100 das 125 escolas médicas dos EUA já incluíram a disciplina Espiritualidade em seus currículos. No Brasil, várias instituições seguiram o exemplo americano e desenvolvem importantes pesquisas. O principal centro difusor desses trabalhos é o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais.

Historicamente, religiosidade e medicina caminham próximas. Os “primeiros médicos” eram identificados na figura dos sacerdotes, xamãs e curandeiros. No Século XX, o desenvolvimento tecnológico acelerado favoreceu uma leitura bioquímica do corpo humano. Tratamentos modernos e medicamentos eficientes trouxeram um grande avanço na área da saúde, deixando para trás a ação do “sobrenatural”.

No entanto, boa parte das pessoas que se submetem a um tratamento de saúde nunca deixou de relatar a consciência de um elemento misterioso, imponderável, não quantificável pelo método científico tradicional. O primeiro estudo mais profundo sobre este fenômeno foi feito na década de 1990 pelo americano Herald Koenig. Segundo suas pesquisas, as crenças religiosas e as emoções influenciam na fisiologia.

“A espiritualidade é uma ferramenta poderosa que traz um potencial ilimitado com implicações sobre o processo de saúde e de doença. Essa significância para a dor e o sofrimento gera coping [capacidade de enfrentar a dor] e transforma o ser na medida em que lhe traz nova percpectiva de futuro”, observa o oftalmologista Henrique Amorim Fernandes, presidente da Associação Médico-Espírita de Campos. Em sua avaliação, é necessário ir além da matéria e do ser biológico na busca pela saúde.

Emoção e meditação

O professor Carlos Eduardo Tosta, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que emoções positivas, como alegria, felicidade e amorosidade, ajudam a restabelecer e preservar a saúde, ao passo que emoções negativas, como tristeza, ressentimento, culpa e ódio, atuam no sentido inverso, desestabilizando os sistemas de defesa do corpo e facilitando o agravamento das doenças. Tosta é autor de duas teses de mestrado, já aprovadas, sobre o benefício no corpo humano da meditação prânica, que tem como base a filosofia védica.

“Com o instrumento da fé, é possível ao ser humano dispor de recursos fartos da natureza para redirecionar o metabolismo, corrigir erros profundos da biologia e harmonizar as células com o espírito”, diz o psiquiatra Flávio Mussa Tavares. Em sua opinião, a visão mais ampla do ser humano é um progresso da Medicina que talvez tenha um impacto tão grande quanto a higiene e os antibióticos tiveram no Século XX. “O homem vence o câncer, a Aids, tranquiliza em minutos um acesso de fúria, realiza transplantes de tecidos e de coração, obtém sobrevida de recém-nascidos superprematuros com baixíssimo peso, obtém imagens incríveis do cérebro... Tudo isso era sobrenatural há 50 anos”, observa.

Você já pensou nisso? 

A poder da prece

O Laboratório de Imunologia da Universidade de Brasília (UnB) fez a seguinte experiência: um grupo de rezadeiras faria preces diariamente por pessoas que não conheciam. O estudo envolveu 52 voluntários. A cada semana, uma dupla fornecia amostras de sangue e respondia a um questionário sobre estresse. Um dos voluntários tinha sua foto encaminhada às rezadeiras, que oravam por ele, sem que houvesse nenhum tipo de contato físico. O resultado: as pessoas que receberam orações apresentaram maior estabilidade dos fagócitos (células de defesa do organismo).

Toque terapêutico

Desde a antiguidade há relatos de curas utilizando-se as mãos. Em 1972, após estudos realizados pelas enfermeiras Dolores Krieger e Dora Kunz, esta técnica começou a ser utilizada pela medicina com o nome de toque terapêutico, sendo empregada atualmente em 80 países. A técnica consiste na imposição das mãos sobre o paciente, com base na concepção de que o ser humano possui um campo de energia que pode estender-se além da pele. Não é muito diferente do que as religiões denominam de passe, reiki ou imposição das mãos.

Quase morte

Em meados dos anos 70, o psicólogo Raymond Moody Jr. deu visibilidade às Experiências de Quase Morte (EQM). Em sua investigação científica, pacientes que foram declarados clinicamente mortos durante alguns minutos e depois retornaram à vida relataram terem se visto fora do corpo físico. Alguns médicos e cientistas dizem que a EQM não passaria de alucinação. Em muitos casos, porém, os pacientes descreveram fatos reais que ocorriam fora da sala durante sua “quase morte” – o que não poderia ser explicado por um mero efeito fisiológico ou bioquímico.