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Canal Bem-estar
Fabiano Gomes
A pedagoga Romilda Borges (de óculos) acompanha ex-detentas numa aula na sede do Ibrads: a ressocialização é fundamental
A pedagoga Romilda Borges (de óculos) acompanha ex-detentas numa aula na sede do Ibrads: a ressocialização é fundamental
A pedagoga Romilda Borges (de óculos) acompanha ex-detentas numa aula na sede do Ibrads: a ressocialização é fundamental

Com apoio do Ibrads, egressos do sistema penitenciário refazem o seu caminho

Errar é humano, assim como dar a volta por cima. Mas nem sempre é fácil aceitar quem erra. Quem já esteve preso sabe muito bem o que é continuar condenado pela sociedade, mesmo depois de cumprir sua pena. “Essa volta é muito difícil. A gente sai de lá perdido, vai procurar emprego e as portas se fecham”, diz Lázaro dos Santos Nogueira, 40 anos.

Em 2007, para resgatar a cidadania dos encarcerados e egressos do sistema penitenciário de Campos, nasceu o Instituto Brasileiro para o Desenvolvimento Social (Ibrads), que oferece cursos de capacitação profissional e apoio psicológico e assistencial a estas pessoas e suas famílias. Lázaro foi um dos beneficiados, fazendo o curso de marcenaria quando estava preso. Hoje livre, ele trabalha como instrutor e planeja montar a própria oficina.

Em dois anos, o Ibrads apoiou 285 ex-detentos, oferecendo-lhes aulas de cabeleireiro, manicure, marcenaria, informática e artesanato. Dezessete voltaram a cometer algum delito – uma reincidência de 6%. É quase nada perto da realidade do país: o Conselho Nacional de Justiça aponta uma taxa de reincidência de 70% entre os presidiários brasileiros. Fruto do preconceito da sociedade e de um sistema carcerário que nem sempre oferece oportunidade de ressocialização, muitos egressos acabam retornando ao crime por uma questão de sobrevivência.

“Eles sabem que, quando surge uma oportunidade, têm que se agarrar a ela com unhas e dentes”, observa a diretora jurídica do Ibrads, Beatriz Bogado, que negocia com a Prefeitura de Campos a oferta de uma turma de Ensino Fundamental para ex-detentos. Nove empresas da cidade já são parceiras da instituição, oferecendo emprego a egressos do sistema prisional.

Memórias do cárcere

profundas. “Eu nunca vou me esquecer do tempo que estive na prisão. Por isso, não acompanhei o crescimento do meu filho, seu primeiro dia de aula, e não participei de suas alegrias e medos. Eu não estava lá”. O relato, de Ana Júlia (nome fictício), foi um dos 17 colhidos pela pedagoga do Ibrads Romilda Borges e organizados recentemente no livro “Cicatrizes Ocultas”.

O projeto começou no Presídio Feminino, onde Romilda foi convidada a realizar um trabalho de escolarização com as presas. A experiência se revelou especial tanto para ela quanto para as detentas. “Recebi dezenas de revelações que diziam sufocá-las por muitos anos, das quais estavam se libertando”, conta a autora, que relacionou histórias sobre temas como desestruturação familiar, violência doméstica, drogas, sonhos e arrependimentos. Com base no livro, o Ibrads pretende fazer um trabalho nas escolas, unindo os relatos à montagem de uma peça teatral inspirada na obra “O Vendedor de Sonhos”, de Augusto Cury.