Simples assim

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Eles descobriram que a vida é mais feliz com menos preocupações

Arthur Schopennhauer (1788-1860) disse que a nossa felicidade depende mais do que temos nas nossas cabeças do que nos nossos bolsos. Num mundo cheio de apelos consumistas e preocupações, muita gente está levando bem a sério o que disse o pensador alemão. Algumas deixaram para trás o conforto e os altos salários nas grandes cidades e se lançaram numa vida mais simples, onde a alegria está no contato com a natureza e na convivência com as pessoas que amam.

Foi o caminho trilhado por José Aderbal Ferreira Cabral e Giovana dos Santos Paula. Trabalhando na lapidação de pedras preciosas em São Gonçalo, eles sentiam que estavam perdendo a batalha para o estresse e a violência urbana. “Havia sempre a preocupação com os filhos, a gente ficava com medo”, diz Giovana, mãe de dois filhos. Em 2001, a família se mudou para Santo Antônio do Imbé, na zona rural de Santa Maria Madalena. Hoje aposentado, Cabral complementa a renda vendendo roupas nas localidades próximas, onde conhece todo mundo pelo primeiro nome. “O futuro não me preocupa. Hoje as minhas necessidades são outras”, diz.

Na avaliação do cientista social José Luiz Vianna da Cruz, a busca pela vida simples é fruto direto de duas situações. A primeira é o uso em excesso das tecnologias atuais – em especial, a internet e o celular, que, ao invés de proporcionarem mais tempo livre, intensificaram a quantidade de trabalho. O trabalhador sai do escritório, mas o escritório não sai dele. A segunda situação é a transformação do perfil das cidades, que se tornaram ambientes estressantes por causa de problemas como a deficiência na mobilidade. Perde-se muito tempo no deslocamento de casa para o trabalho.

“O resultado disso é uma sensação de angústia, depressão, ansiedade e pânico, que se tornou o mal do século. A sensação de solidão hoje é muito maior que antigamente. Pelo Whatsapp, você se relaciona com o mundo, mas está sozinho”, observa o professor, que também cita como fatores desencadeantes deste fenômeno a contaminação do solo e o aquecimento global. Com uma vida tão complicada e um planeta à beira de um colapso em diversos recursos naturais, muita gente vê como saída uma vida mais simples, mais voltada para o contato social e com menos aparatos eletrônicos. Menos digital, mais pé no chão.

Inayá, 18 anos, filha mais nova do Cabral e da Giovana, cresceu entre as montanhas de Santo Antônio do Imbé, cercada de verde, com um riacho cortando o quintal de casa. O celular tem Whatsapp, mas, como sinal de internet na região é uma raridade, usa pouco o aplicativo. “É até bom, porque não crio dependência”. Com o Ensino Médio concluído, a jovem vai começar a cursar Serviço Social na UFF de Campos. Uma vez por semana trocará o zona rural pelo agito urbano. Ainda assim, não perde o sono pensando no amanhã. “Não planejo, sei que Deus vai planejar. Mas em pensava em trabalhar aqui mesmo. Se for da vontade Dele, vou ficar muito feliz”. Como diz uma estrofe da música “Pão e Poesia”, da cantora Simone: “Felicidade é uma cidade pequenina / é uma casinha, é uma colina / qualquer lugar que se ilumina / quando a gente quer amar”

Felicidade Interna Bruta

O importante não é quanto se ganha, mas como se vive. Este pensamento motivou a criação de um indicador cada vez mais utilizado para medir o bem-estar de um povo: a Felicidade Interna Bruta (FIB). Este conceito nasceu no Butão, um país montanhoso da Ásia, cuja economia se baseia na agricultura. Em 1972, com apoio do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o rei Jigme Singya Wangchuck começou a colocar em prática o conceito de que a “riqueza” de um país deve ser calculada com base em outros aspectos além do desenvolvimento econômico.

O FIB leva em conta nove dimensões: bem-estar psicológico, saúde, uso do tempo, vitalidade comunitária, educação, cultura, meio ambiente, governança/cidadania e padrão de vida. Segundo este índice, o país mais feliz é a Dinamarca. O Brasil ocupa a 25a posição.

O homem sem grana

Há sete anos, o irlandês Mark Boyle seguiu o caminho contrário dos colegas que pensavam em arrumar um bom emprego no mercado financeiro para ter uma vida tranquila. Inspirado numa frase famosa de Mahatma Gandhi, “seja a mudança que quer ver no mundo”, ele propôs uma mudança radical: viver sem dinheiro. Seria uma experiência de um ano, mas acabou durando dois anos e meio.

Mark passou a morar num trailler usado, ocupando um pequeno pedaço de terra na periferia de Londres, onde plantava o próprio alimento. Ao descrever sua experiência, ele disse ter vivido ali seus momentos mais felizes, por dois motivos: estar livre do estresse e ter a alegria da convivência com outras pessoas, uma vez que, não tendo dinheiro, várias vezes precisou trocar produtos e serviços para ter o necessário.

A experiência gerou o livro “The Moneyless Man” (O homem sem grana). Segundo o ativista, nossa economia estaria destruindo a natureza e arruinando vidas. E a culpa estaria no dinheiro, que cria uma distância entre o homem e os produtos que ele consome. Há alguns anos, Boyle voltou a conviver com o vil metal, de forma moderada. Seu legado por uma vida mais simples, no entanto, já estava plantado para sempre.