Recomeçar sempre

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Depois dos 60 anos, eles estão em plena atividade, estudando, fazendo planos...

As palavras de Cora Coralina, que enchem de poesia esta reportagem, são fontes de inspiração para muita gente que se recusa a acreditar no fim da linha. Mesmo na terceira idade, sempre é tempo de recomeçar.

Tal como a poetisa goiana, Adilea Lopes Silveira nunca pensou em desistir. Desde criança, queria ser médica. Em 2017, quando completar 67 anos de idade, finalmente realizará seu sonho. Mãe de três filhos e avó de seis netos, a futura doutora divide a sala de aula na Faculdade de Medicina de Campos com colegas na faixa dos 20 anos. “Sofri, mas consegui. Não posso passar pela vida sem ajudar as pessoas”, conta a estudante, cheia de planos.

Foram muitas as pedras no caminho. No interior de Silva Jardim, onde vivia com a família, eram poucas as opções de estudo. Adilea se formou professora, depois pedagoga, e por fim estudou Biologia. Já aposentada, morando em Macaé, decidiu que era hora de fazer o que realmente queria. Aos 59 anos, passou no vestibular de Medicina. E já teria se formado, não fosse o contratempo com um professor. “Ele dizia que o meu lugar era em casa, cuidando dos netos”. Deprimida, a futura médica trancou a matrícula. Mas acabou voltando. E provando que, ultrapassado, só mesmo o preconceito.

Continuam na ativa são cada vez mais frequentes. Com a diminuição das taxas de natalidade, a população do Brasil está envelhecendo. Segundo estimativas do IBGE, por volta do ano de 2050 o país terá 73 idosos para cada 100 crianças. Outro fator importante a ser considerado é o aumento na expectativa de vida dos brasileiros, que hoje é de 72,78 anos. Essa média tende a chegar a 81,29 anos em 2050. Vivendo mais, e melhor, os cidadãos com mais de 60 anos não parecem dispostos a ficar em casa assistindo à novela.

“Estamos num tempo em que todos os preconceitos estão sendo confrontados. Quem vai dizer que o idoso não pode, se ele está realizando? É tempo de um mundo novo”, pondera a psicóloga Claudete Saraiva. Em sua opinião, é importante enxergar cada pessoa como um sujeito ativo nas decisões de sua vida, independente de sua condição.

O professor Joel Maciel Soares é um desses cidadãos que não cogitam em parar. Formado em Matemática em 1966, ele exerceu o magistério em diversas escolas de Campos e foi funcionário do Banco do Brasil. Aos 62 anos, resolveu estudar Direito. Depois de concluir o segundo curso universitário, ainda se tornou professor da cadeira de Direito Comercial. “Para estudar, nunca é tarde; ajuda a pensar, planejar a transformar a vida e a usar melhor a memória”.

Aos 88 anos de idade, dois filhos e três netos, já aposentado nas três profissões, Joel continua produzindo – agora no mundo da literatura. Com dois livros editados, planeja lançar o terceiro. “O prazer em aprender é o que me motiva”, conta o professor. Seu caminho é parecido com o de Cora Coralina, que editou seu primeiro livro aos 75 anos de idade. A vida é assim: para sempre, um recomeço.

Municípios oferecem oportunidades

Diz o artigo 21 do Estatuto do Idoso: “O Poder Público criará oportunidades de acesso do idoso à educação, adequando currículos, metodologias e material didático aos programas educacionais a ele destinados”. Nos últimos anos, foram criadas diversas oportunidades para os cidadãos da terceira idade.

Em Campos, 250 pessoas participam dos cursos oferecidos pela Superintendência dos Direitos do Idoso: crochê, vagonite, pintura em tecido, violão, inclusão digital e coral. Mas os idosos não têm limites. Sebastião Manhães, 78 anos, formou-se no curso de inglês oferecido pelo Centro de línguas Languages for All. “Nunca é tarde para aprender. Na escola da vida, a gente aprende até o momento da morte”, conta o marceneiro aposentado.

Os macaenses também mostram que têm muito fôlego. Através de uma parceria entre a Fundação Educacional de Macaé (Funemac) e a Secretaria Municipal de Saúde, um grupo de idosos está participando de um curso de voz. Além de ensinar técnicas vocais, o curso trabalha o estímulo à memória recente, promovendo a autoestima. “ Aqui eu me sinto bem, me distraio, toco pandeiro, canto e tenho um compromisso pela manhã. Ficar muito tempo parado enferruja”, diz o músico profissional Joel Duarte dos Santos, que viu nas aulas de voz uma oportunidade de continuar um sonho interrompido por complicações cardíacas.

Em Nova Friburgo, a Secretaria Municipal de Assistência Social, Direitos Humanos e Trabalho mantém o Centro de Convivência da Pessoa Idoso. Seus cerca de 700 usuários participam de 11 grupos de atividades variadas, que incluem aulas de ginástica, alongamento, informática, dança e artesanato.